Bagão Félix: “Ser benfiquista só quando se ganha é fácil, mas é uma ligação interesseira, conjuntural que não resiste à mínima brisa perdedora”

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“Importa que sejamos capazes de não anular o passado numas semanas de uma exageradamente chamada crise

Caminho da pedras
Têm sido, de facto, penosas as últimas semanas do futebol apresentado pelo Benfica. Não há como negá-lo. Ainda que com uma defesa enfraquecida face à temporada passada, custa a compreender a constante falta de controlo de jogo no meio-campo e o distanciamento incompreensível entre linhas. Agora não há lesionados, mas parece haver cansados. Mistérios que são difíceis de decifrar. No jogo em Basileia, a copiosa derrota até poderia ser uma daquelas noites em que tudo corre absolutamente mal e que, afinal, todas as equipas têm, mesmo as maiores. No ano passado, o Barcelona perdeu por 4-0 em Paris e o PSG retribuiu com um impensável desaire por 6-1. Nesta mesma jornada de agora, o Bayern só não apanhou mais de 3 golos por muita sorte. Porém receio que a noite negra na Suíça não tenha sido um mero acaso em que o futebol é pródigo. Neste campeonato, está a ser custoso ver o meu clube desperdiçar pontos com exibições muito vulgares, senão mesmo muito deficitárias. Há um pormenor do jogo da Champions que vale a pena ser retido. A equipa só fez 5 faltas (segundo o quadro da transmissão televisiva, embora 8 segunda A Bola)! Qualquer destes algarismos parece evidenciar uma equipa de insustentável leveza. Não me lembro de alguma vez o Benfica ter feito tão poucas faltas. E, neste domínio, é caso para dizer nem 8 nem 80, ou seja, nem poucas faltas, nem excesso de faltas. Um outro aspecto que me entristeceu foi o de observar a frustração imerecida de tantos portugueses que lá estiveram e que, imagino, no dia seguinte de trabalho se sentiram vexados.

Contra o Marítimo – equipa bem organizada – um batatal travestido de relvado pseudo composto nas vésperas do jogo, o Benfica, uma vez mais, foi incapaz de segurar um resultado positivo depois de um golaço de Jonas. E já lá vão quatro (CSKA, Boavista, Braga e Marítimo). Um jogo em que poderíamos ter vencido, mas que também poderíamos ter perdido. Houve vontade, empenho, mas tal não foi suficiente. Houve excessivas perdas de bola no epicentro do campo. Há um aspecto que eu – treinador de redpass – não compreendo de todo e que foi bem visível no jogo do Funchal. Onde está o ponta-de-lança? Mitroglou já cá não está, ele que, mais tosco ou mais habilidoso, fixava estabelecimento na grande área e por ali andava para marcar uns golinhos. Jonas tem sido (e bem) um jogador que ocupa e cria espaços para fora da área. Jiménez é muito esforçado e trabalhador, mas joga quase a extremo, numa posição para mim incompreensível! Houve uma série de jogadas em que os alas olhavam para a área e não morava lá ninguém!
Fazendo-se, porém, a comparação com o que aconteceu, no ano passado, com as equipas que o Benfica já defrontou, nesta temporada o resultado não é muito diferente: menos dois pontos. Mas a jogar muito menos.

Este fim-de-semana, afinal tudo na mesma na classificação, o que é uma má notícia.

Ser do Benfica
Nos momentos difíceis é necessário que a emoção descontrolada não tolde a razão. O que se passou na Assembleia-geral do Benfica da passada semana é, a todos os títulos, deplorável. Sem perdermos a capacidade crítica e o dever de escrutinar as decisões dos órgãos eleitos (e estes perceberem que os nossos estados de alma devem ser tomados me conta), importa que sejamos capazes de não anular o passado numas semanas de uma exageradamente chamada crise.
Ser benfiquista só quando se ganha é fácil, mas é uma ligação interesseira, conjuntural que não resiste à mínima brisa perdedora. Ao longo da minha vida, já passei por momentos gloriosos e por acontecimentos desoladores. É assim o desporto. Não se ganha sempre e não se perde sempre. No fim, o que para mim sempre contou, conta e contará são três palavras mágicas unidas no nome do meu clube – Sport Lisboa e Benfica – essa identidade trinitária consagrada no lema E pluribus unum. O seu espírito fundacional, a sua história, os seus sucessos são a imagem indelével de um clube tão português e ecléctico quanto saboroso.
Às vezes me pergunto porque sou do Benfica. Sou e chega. Sou amante, até ao tutano da minha alma. E, como bom amante clubista, em regime de monogamia absoluta. Cega, mesmo. Porque nenhum outro me interessa, para além do Benfica.
Um desaire do meu Benfica perfura-me o ânimo, sem cuidar da anestesia. Uma vitória do meu Benfica alimenta-me mais do que o mais calórico dos alimentos e anima-me mais do que uma mão cheia de antidepressivos. Na vitória, o amor ao clube é partilhado, mas na derrota a solidão dá-lhe uma expressão infinita e incondicional. Como acontece com a pessoa amada, o verdadeiro teste do afecto concretiza-se nos momentos difíceis.
O Benfica é, para mim, afecto e privilégio, coração e razão, vitamina e analgésico, fermento e adocicante, saudade e desafio, cumplicidade e aconchego.
O Benfica acontece em mim. E nesse acontecer, funde-se a minha personalidade, com o sentimento de pertença. De paixão. Onde tudo o resto do clube se apaga, excepto isso mesmo: a ideia de ser Benfica. Sem personagens, sem fronteiras, sem referências. Apenas a imanência de o Benfica estar dentro de mim e eu dentro do Benfica. Ganhando ou perdendo. Com papoilas saltitantes. E sonhos dentro do sonho.

Eusébio Cup
Já aqui falei da inoportunidade de o Benfica ter acordado o desafio correspondente à Eusébio Cup no início de Outubro, no Canadá. Fiquei, pois, satisfeito com o seu cancelamento, independentemente das razões que possam ser invocadas.
No entanto, entristece-me a desvalorização a que vem sendo submetido este troféu criado para homenagear eternamente o grande Eusébio da Silva Ferreira. Começou por ser um jogo com grandes clubes (Inter, Milan, Arsenal e Real Madrid), passou depois para clubes medianos (Tottenham, São Paulo, Ajax) e, nos últimos anos, desembocou em partidas pouco apelativas como, por exemplo, contra o Monterrey (no México!) e o Torino. Aparentemente, deixou de ser o verdadeiro jogo de apresentação da equipa no Estádio da Luz. Este ano, depois da tentativa falhada com o Chapecoense (aqui até se percebe o efeito emocional depois do trágico acidente que vitimou a equipa brasileira), ajustou-se o jogo com o novo Glasgow Rangers (não confundir com o consagrado e velho Glasgow Rangers…), agora anulado. Ainda haverá a 10.º edição. da Eusébio Cup? Tenho pena, embora compreenda quão difícil é encontrar datas e equipas que valorizem o troféu.

Contraluz

– Número I: 1601
Os dias desde o último de campeão (tricampeão) do FC Porto (18 de Maio de 2013).
– Número II: 5624
Os dias desde o último título de campeão do Sporting (12 de Maio de 2002).
-Número III: 136
Os dias desde o último título de campeão (tetracampeão) do Benfica (20 de Maio de 2017)
– Palavra: Crise
Deriva do grego Krisis que significa decisão. Já para os chineses, crise=perigo+oportunidade. A palavra que na vida, na política, na economia, no futebol mais se ouve e repete. A nossa idossincrasia ciclotímica mais parece um registo de um sismógrafo. Da euforia à crise num ápice e, de regresso, da crise ao seu esquecimento à distância de um nada. Agora, que já não temos cá a troika, é a vez do Benfica alimentar convulsivamente o diário nacional das crises… até parecendo que não ganhou 12 dos 16 títulos nacionais das últimas 4 temporadas!
– Pensamento:
«A verdadeira crise, é a crise da incompetência. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo»
(Albert Einstein, 1879-1955)”

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