Saltar para o conteúdo

69 faltas, dois amarelos e a arbitragem voltou à idade da pedra

69 faltas, dois amarelos e a arbitragem voltou à idade da pedra

João Ferreira chegou para ocupar o lugar deixado por Duarte Gomes e, com a mudança, regressaram alguns dos velhos vícios da arbitragem portuguesa.

Hoje temos mais de uma dezena de antigos árbitros espalhados pelos jornais, televisões e rádios a analisar decisões de arbitragem. Muitos deles fizeram carreira num período que atravessou alguns dos momentos mais polémicos do futebol português e vários cruzaram-se, dentro do setor, com quem hoje volta a dirigir tecnicamente a arbitragem.

Este Conselho de Arbitragem chegou com a bandeira da transparência.

Bastaram as polémicas em torno de Luciano Gonçalves e das alegadas interferências nas nomeações para essa bandeira começar rapidamente a desaparecer.

Primeiro acabaram os programas onde eram explicadas publicamente algumas das decisões dos árbitros. Agora deixaram também de ser divulgadas as avaliações qualitativas dos árbitros e dos VAR.

Menos explicações, menos escrutínio e mais perguntas.

Tudo isto acontece depois de terem sido conhecidas suspeitas sobre nomeações, incluindo o caso relacionado com uma reunião com o presidente da SAD do Estrela da Amadora, matéria que continua a exigir esclarecimentos.

A arbitragem portuguesa prometeu transparência e decidiu responder às suspeitas fechando ainda mais as portas.

Dentro das quatro linhas, os números também merecem atenção.

Ao fim de cinco jornadas, o FC Porto soma 69 faltas assinaladas e apenas dois cartões amarelos.

Dois amarelos em 69 faltas.

Na época passada, Farioli tinha o hábito de retirar rapidamente jogadores amarelados para evitar riscos. Esta temporada, olhando para os números, o problema praticamente deixou de existir. Os jogadores do FC Porto conseguem acumular faltas e interromper transições sem que o cartão apareça com a frequência que seria expectável.

E depois chegamos ao FC Porto-Moreirense.

Antes de falar de arbitragem, volto a desejar uma recuperação rápida a Victor Froholdt. O momento foi assustador e a saúde de um jogador estará sempre acima de qualquer discussão sobre futebol.

Mas isso não impede que se comparem decisões.

Guilherme Liberato foi expulso depois do lance sobre Froholdt. António Nobre assinalou inicialmente apenas a falta e foi necessária a intervenção do VAR para chegar ao vermelho.

Na primeira parte, William Gomes teve uma entrada sobre Kiko que também merece ser analisada com o mesmo rigor.

Na minha leitura, se entendemos que a intensidade e o perigo do lance de Liberato justificam vermelho direto, então temos de explicar por que razão o lance de William Gomes recebeu tratamento diferente.

A consequência física de uma entrada não pode substituir a análise da própria entrada.

Froholdt ficou inanimado e acabou transportado para o hospital. Felizmente, Kiko não sofreu uma consequência semelhante.

Mas o cartão deve avaliar aquilo que o jogador fez, não apenas aquilo que aconteceu ao adversário depois.

Depois vamos ler as análises dos antigos árbitros.

No lance de William Gomes aparecem argumentos para justificar que não existe vermelho. No de Liberato, praticamente não existem dúvidas.

É aqui que começo a deixar de perceber a utilidade de utilizar as opiniões dos antigos árbitros como selo definitivo de validação.

Eu próprio o fiz durante muitos anos.

Se três antigos árbitros diziam que determinado lance era penálti, utilizávamos essas opiniões para mostrar que tínhamos razão. Se diziam o contrário, aceitávamos que a nossa interpretação poderia estar errada.

Hoje tenho cada vez mais dificuldade em fazê-lo.

Não porque todos estejam errados ou tenham uma agenda. Mas porque encontramos demasiadas vezes interpretações diferentes para lances semelhantes e uma enorme facilidade em adaptar argumentos à decisão tomada pela equipa de arbitragem.

Numa semana, um agarrão é insuficiente para existir falta.

Na seguinte, outro agarrão pode tornar-se decisivo para invalidar uma jogada.

O problema deixa então de ser apenas o árbitro que está dentro de campo. Passa também a ser a forma como, cá fora, se procura justificar quase todas as decisões.

E é precisamente neste momento que o Conselho de Arbitragem decide retirar ainda mais informação ao público.

Sem programas de esclarecimento.

Sem avaliações públicas.

Com processos e suspeitas recentes sobre nomeações.

Duarte Gomes, que defendia um caminho de maior abertura, já classificou esta nova orientação como um regresso à “idade da pedra”.

É difícil encontrar uma descrição melhor.

Num campeonato onde já discutimos relvados pintados, estádios praticamente vazios, transmissões com critérios questionáveis e uma arbitragem cada vez mais fechada sobre si própria, gostava realmente de perceber onde vão encontrar os famosos 300 milhões de euros anuais que se apontam como objetivo para os direitos televisivos.

Talvez o próximo FC Porto-Manchester City ajude a perceber outra coisa.

Não me admirava nada que o FC Porto conseguisse ver mais cartões amarelos em 90 minutos de competição europeia do que nos primeiros 450 minutos do campeonato português.

Aí o árbitro será estrangeiro.

E talvez também o critério.


Comentários

Leave a Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.