APAF pediu estatuto no parlamento, mas fugiu ao essencial

A APAF foi ao parlamento falar de violência no desporto e saiu de lá a pedir que os árbitros tenham um estatuto equiparado ao da polícia. A ideia, além de soar bem num microfone, não resolve quase nada. E até tem um lado ridículo. Muitos árbitros já são polícias. Portanto, o que estão realmente a pedir é que um miúdo de 16, 17 ou 18 anos, que anda a arbitrar jogos de formação, passe a ter um estatuto equiparado ao de um agente de autoridade. Isto não lembra a ninguém.
Em vez de exigirem policiamento em todos os jogos, nem que seja com polícias municipais, em vez de pedirem presença efetiva onde o risco existe, preferem sonhar com uma transformação da autoridade dentro de campo para fora dele. Como se isso afastasse agressores. Como se isso impedisse violência. Não impede. Vai sempre existir violência no desporto, tal como existe nas ruas, e tal como vemos até polícias a serem agredidos. Portanto, vender esta proposta como grande solução é apenas atirar areia para os olhos.
José Borges podia ter ido ao parlamento fazer muito melhor. Podia ter levado medidas sérias para estabilizar o setor que diz defender. Podia ter falado em responsabilizar criminalmente, ou pelo menos com multas pesadas, diretores de jornais desportivos e comentadores televisivos que passam semanas a levantar suspeitas sobre árbitros, sobretudo quando joga o Sporting. Podia ter pedido mão pesada para clubes ou entidades que usam grupos de comunicação social para atacar a arbitragem e condicionar o ambiente à volta dos jogos. Isso sim era defender árbitros. Isso sim era mexer no foco do problema.
Porque é muito bonito aparecer um presidente de clube a dizer que não fala de árbitros, quando por trás há um grupo de comunicação social inteiro sempre pronto a fazer esse trabalho por ele. É muito bonito lavar as mãos à frente e mandar incendiar por trás. Era aí que José Borges podia ter ganho pontos. Era aí que mostrava liderança. Era aí que se distinguia e não deixava que o seu vice-presidente lhe passasse à frente na subida a líder máximo do Conselho de Arbitragem.
Depois ainda teve a lata de dizer, sem se rir, que não se pode ter alguém responsável por decisões que envolvem milhões de euros sem um enquadramento profissional digno. A frase até podia impressionar, se a realidade não a desmontasse logo. Gustavo Correia teve enquadramento, teve formação, teve estrutura, teve tudo o que o sistema lhe deu. E mesmo assim tomou decisões que podem tirar milhões a um clube para beneficiar outro. Se com esse enquadramento acontece isto, então a pergunta é simples, se não tivesse, como seria?
A APAF foi ao parlamento pedir mais estatuto, mas esqueceu-se de pedir mais coragem. Coragem para enfrentar quem destrói a arbitragem todos os dias nos jornais, nas televisões e nas campanhas montadas. Enquanto isso não acontecer, podem inventar os estatutos que quiserem, porque o problema continuará bem vivo.
E já agora, como está o processo contra o meio de comunicação social que levantou suspeitas ao árbitro do Sporting-Tondela?


