Bagatskis assume o basquetebol do Benfica e já pede pavilhão esgotado
Antes de falar de basquetebol, o letão fez o trajeto que todo o recém-chegado às Águias devia fazer. Passou pelo Estádio da Luz, esteve no Museu Benfica, Cosme Damião, e absorveu aquilo que só se sente a andar por ali. Não é um pormenor menor. É o tipo de gesto que mostra que percebeu onde caiu.
Depois, ao trabalho. Bagatskis quer uma equipa que jogue rápido, que jogue com intensidade e, sobretudo, que jogue com cabeça. Basquetebol veloz, sim, mas inteligente, o que na prática significa exigência dobrada a cada treino.
Aqui é que a coisa fica interessante. Pedir um estilo assim não é inocente quando se sabe o estado em que a equipa foi deixada. Saíram do Benfica vários jogadores experientes, e isso significa uma coisa muito concreta em basquetebol, perde-se rotina de leitura de jogo, perde-se quem sabe gerir os minutos finais apertados. Um plantel a reconstruir-se raramente joga rápido sem cometer erros, porque velocidade sem automatismos é só correr sem destino. Bagatskis está, na prática, a pedir a um grupo ainda por afinar aquilo que normalmente só se pede a equipas rodadas. É um risco calculado, e também é a única forma de compensar a falta de nomes de peso, com identidade e ritmo coletivo em vez de talento individual consagrado.
Há ainda outro recado, este mais para dentro do vestiário. O treinador deixou claro que quer entrega total de todo o plantel, sem olhar a currículo ou a passaporte. Não interessa se é o mais rodado ou o mais novo, se é português ou estrangeiro, a exigência é igual para todos. E isto também é leitura, não é discurso feito. Numa equipa que arranca praticamente do zero, com peças novas a encaixar, essa igualdade de exigência é a única forma de construir hierarquia interna sem depender de nomes já feitos.
O pavilhão esgotado que Bagatskis pede não se conquista com discurso de apresentação, conquista-se com resultados que ainda estão para ser vistos. Mas há uma lógica por trás do pedido, um pavilhão cheio empurra uma equipa jovem de um jeito que nenhum treino substitui, e isso Bagatskis sabe bem, até porque é isso que está a pedir primeiro, antes de pedir pontos.
Se vai conseguir esgotar o pavilhão, só o tempo dirá. Mas pelo menos já sabemos que ambição não vai faltar, e que a aposta é mais arriscada do que parece à primeira vista.

