André Villas-Boas abriu a boca para elogiar Rui Costa e, de repente, toda a gente ficou surpreendida. Não devia. Quem deve, sabe o que deve, e o presidente do FC Porto tem razões muito concretas para andar com cuidado quando o assunto é o Benfica.
A condenação que não desapareceu
Recordemos os factos, porque eles importam. O FC Porto foi condenado judicialmente no caso dos e-mails, processo em que ficou provada a espionagem ao Benfica. Não é acusação, não é rumor, não é guerra de adeptos, é decisão judicial. O Benfica questionou publicamente, e com toda a legitimidade, quais as consequências desportivas que deveriam decorrer desta condenação. Até hoje, a resposta do futebol português foi o silêncio.
Em Inglaterra, quando o Southampton foi apanhado a espiar treinos do Middlesbrough, o clube foi imediatamente expulso do playoff de acesso a Premier League. Por cá, provada a espionagem, o presidente do clube condenado aparece a elogiar o rival. Talvez seja uma forma de gerir a pressão. Talvez seja cálculo. Provavelmente é as duas coisas.
Um clube com uma condenação por espionagem nas costas não está em posição de bater no peito. E quem lidera esse clube sabe-o. Os elogios de hoje são também, à sua maneira, o reconhecimento implícito de uma posição fragilizada.
O futebol português precisa de consequências reais
O problema maior não é Villas-Boas elogiar Rui Costa. O problema é um país onde a espionagem desportiva provada em tribunal não gera qualquer consequência federativa ou competitiva. Enquanto isso não mudar, os elogios diplomáticos serão sempre mais baratos do que deveriam ser. E o Benfica tem todo o direito de continuar a perguntar, o que é que a condenação dos e-mails valeu afinal.
A resposta, até hoje, é nada. E isso diz tudo sobre como se governa o futebol em Portugal.


