Do Leandro Barrenechea ao mercado russo para Trubin
O Benfica volta a jogar na quarta-feira, frente ao Moreirense, para acertar o calendário da Liga. Mas, antes disso, é preciso falar sobre aquilo a que assistimos este fim de semana e que deveria preocupar seriamente quem anda a falar em centralização dos direitos televisivos e em receitas na ordem dos 300 milhões de euros.
Já nem vou entrar na arbitragem, porque o cenário é aquele que conhecemos. Cada vez mais fechada, cada vez com menos explicações públicas e com critérios nas nomeações que continuam a levantar dúvidas.
Os clubes só vão começar verdadeiramente a protestar quando perceberem que estão a ficar para trás nos seus objetivos. Até lá, cada um olha para o seu quintal.
Mas o problema do futebol português vai muito além da arbitragem.
Marco Silva foi curto e direto sobre o estado do relvado do Marítimo.
O treinador do Benfica veio de uma Liga onde tudo é pensado para promover o espetáculo, proteger o produto e manter a Premier League como o campeonato mais rentável e mediático do mundo.
Nada tenho contra o Marítimo ou contra os seus adeptos, mas aquele relvado tem de servir de alerta. Não podemos continuar a aceitar terrenos de jogo naquele estado na principal competição profissional portuguesa.
E o pior é que existem exemplos ainda mais preocupantes no nosso campeonato.
Depois temos o produto televisivo.
A Sport TV escolheu Rui Pedro Rocha para narrar o Marítimo-Benfica. É um narrador que, na minha opinião, apresenta uma postura completamente diferente consoante o clube que está em campo.
Dizem que é benfiquista. Para mim, é completamente irrelevante. Quero apenas profissionalismo e o mesmo critério para todos.
Durante o Marítimo-Benfica, surgiu ainda um momento particularmente infeliz quando se discutia a situação de Trubin e os mercados que permaneciam abertos. A Rússia foi apresentada como uma possibilidade no meio da conversa sobre um jogador internacional ucraniano. Perceberam rapidamente o problema e tentaram corrigir a situação em direto.
Quem fica mal não é apenas quem profere o comentário. Fica mal a estação que cobra mais de 30 euros por mês aos seus clientes e deveria garantir um padrão profissional à altura do preço.
E já que falamos em profissionalismo, tanto se tem discutido a LiveMode e os alegados padrões jornalísticos exigidos para as futuras transmissões que talvez fosse interessante olhar primeiro para aquilo que temos atualmente.
Num canal cuja principal razão de subscrição continua a ser o futebol português, chegamos ao ponto de ouvir comentadores confundirem nomes de jogadores do Benfica.
Leandro Barrenechea?
Talvez seja um novo reforço que ainda não conhecemos.
Enzo Barrenechea e Leandro Barreiro são dois jogadores diferentes e quem está profissionalmente a comentar um jogo do Benfica deveria saber isso.
E por falar em Leandro Barreiro, depois de marcar dois golos e ser uma das figuras da partida, a flash interview também deixou muito a desejar na qualidade e quantidade das perguntas.
Depois passamos para a própria realização televisiva.
Durante anos ouvimos críticas às transmissões da BTV e aos seus comentadores. Mas olhamos para determinados jogos transmitidos pela Sport TV e encontramos imagens em contraluz, câmaras colocadas em posições pouco apelativas e repetições que nem sempre ajudam a perceber os lances.
Em algumas situações aparecem cinco câmaras apontadas para uma área, mas quando chega o momento de analisar determinados lances acabamos dependentes de imagens que parecem provenientes das câmaras de segurança do estádio.
Há ainda outra questão fundamental.
A forma como se posicionam algumas câmaras consegue fazer estádios parecerem ainda mais vazios do que realmente estão. E, infelizmente, existem muitos jogos onde nem é preciso grande esforço porque as bancadas estão efetivamente quase desertas.
Depois temos os horários.
Muitos são definidos em função das necessidades televisivas e o adepto, aquele que compra bilhete, paga deslocações, come fora, leva os filhos ao estádio e cria o ambiente que torna o futebol vendável, continua demasiadas vezes colocado no final da lista de prioridades.
Queremos vender um campeonato por centenas de milhões de euros, mas primeiro temos de perceber o que estamos realmente a vender.
Relvados degradados.
Estádios vazios.
Horários pouco amigos dos adeptos.
Transmissões que precisam de melhorar.
Comentadores que nem sempre conhecem os jogadores.
Uma arbitragem cada vez mais fechada sobre si própria.
E depois aparece o sonho dos 300 milhões.
A centralização pode ser uma oportunidade para o futebol português. Mas centralizar direitos televisivos não transforma automaticamente um produto mediano num produto premium.
Antes de discutir quanto queremos receber, talvez fosse importante discutir aquilo que vamos oferecer em troca.
Porque, olhando para aquilo que vemos semanalmente na primeira e na segunda Liga, os 300 milhões parecem muito mais próximos de uma folha de Excel do que do produto que atualmente temos para vender.
Não basta dizer que a Liga portuguesa vale 300 milhões.
É preciso fazê-la valer 300 milhões.
