Duarte Gomes explicou a teoria, agora analise as 69 faltas
O antigo diretor técnico nacional de arbitragem, Duarte Gomes, que saiu da Federação depois de expor aquilo que considerava serem problemas graves dentro do setor, utilizou as redes sociais para abordar a relação entre faltas cometidas e cartões amarelos.
Um tema que, felizmente, tem sido cada vez mais discutido por benfiquistas e até sportinguistas, com várias publicações e imagens criadas com recurso a inteligência artificial a chamarem a atenção para aquilo que está a acontecer nos jogos do FC Porto.
Vou deixar a publicação de Duarte Gomes para perceberem aquilo que vou dizer a seguir.
Se o objetivo era consciencializar os adeptos e, de alguma forma, defender a classe da ideia de que existe obrigatoriamente uma relação matemática entre o número de faltas e os cartões, percebo a explicação.
Mas não chega.
E, como não gosto de criticar sem apresentar uma alternativa, digo aquilo que gostaria de ter visto.
Uma análise profunda às 69 faltas assinaladas ao FC Porto nas primeiras cinco jornadas.
Uma por uma, ou pelo menos uma amostra suficientemente representativa.
Gostava de perceber quantas são faltas normais, quantas interrompem ataques prometedores, quantas são pisões, quantas envolvem utilização dos braços e quantas, pelas Leis do Jogo, deveriam ter terminado em cartão amarelo.
E, naturalmente, para existir verdadeira imparcialidade, gostaria de ver exatamente o mesmo trabalho feito com Benfica e Sporting.
Porque eu não compro facilmente dois cartões amarelos em 450 minutos de campeonato depois de 69 faltas assinaladas.
E sei perfeitamente que 69 faltas não significam automaticamente 10, 15 ou 20 amarelos. Uma equipa pode cometer muitas infrações sem que nenhuma justifique sanção disciplinar.
Precisamente por isso quero ver os lances.
Nos Barreiros vimos uma equipa agressiva perante o Benfica. O Marítimo terminou o encontro com dois amarelos e o próprio Benfica recebeu três, mais cartões em 90 minutos do que o FC Porto acumulou nas primeiras cinco jornadas.
E alguns desses amarelos surgiram precisamente em situações de interrupção de transições.
Então analisemos o critério.
É isso que falta.
Os comentadores afetos ao FC Porto vão certamente aparecer nas televisões a falar numa espécie de “santa aliança” entre benfiquistas e sportinguistas por causa deste tema.
Convém recordar, contudo, que esta discussão sobre faltas, cartões e jogadores condicionados não nasceu agora.
Na temporada passada foram precisamente comentadores ligados ao universo portista que insistiram várias vezes neste tipo de análise, sobretudo quando Farioli retirava jogadores já amarelados por receio de uma segunda advertência.
Agora que os números levantam perguntas sobre o FC Porto, parece que analisar faltas e cartões deixou subitamente de ser relevante.
Um verdadeiro serviço à arbitragem, sobretudo numa altura em que Luciano Gonçalves e o Conselho de Arbitragem decidiram reduzir drasticamente a informação disponibilizada ao público, seria Duarte Gomes aproveitar o enorme alcance que tem nas redes sociais para fazer aquilo que sabe fazer.
Pegar nos lances.
Mostrar as imagens disponíveis.
Explicar tecnicamente.
Esta falta era apenas falta.
Esta justificava amarelo.
Aqui o árbitro esteve bem.
Aqui deveria ter mostrado cartão.
Aqui ficou uma infração por assinalar.
Depois fazer exatamente o mesmo com Benfica e Sporting.
Isso ajudaria verdadeiramente os adeptos a compreender o critério.
Ficar apenas pela explicação teórica de que uma equipa pode cometer muitas faltas e receber poucos cartões permite todas as interpretações e não responde à questão essencial.
Os dois amarelos em 69 faltas foram disciplinarmente bem decididos?
É essa a pergunta.
E amanhã aparece um teste interessante.
O FC Porto recebe o Manchester City na Champions. Pela forma intensa como a equipa portista pressiona, disputa duelos e procura interromper transições, teremos uma equipa de arbitragem de outro contexto competitivo a aplicar o seu critério.
Não significa que um jogo vá provar tudo aquilo que aconteceu em cinco jornadas.
Mas vai ser interessante comparar.
Se em 90 minutos europeus começarem a aparecer cartões por situações que durante 450 minutos em Portugal passaram sem sanção disciplinar, então teremos ainda mais motivos para continuar a fazer perguntas.
A estatística iniciou a discussão.
Agora precisamos dos lances para encontrar as respostas.
