Leonor Pinhão: Um lindo tributo à imparcialidade ativa

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O juiz adepto do Benfica que ia julgar o caso de Rui Pinto pediu escusa do processo por motivos do seu benfiquismo público e notório poder vir a inquinar a decisão. Fez lindamente. É assim mesmo. O meu avô, um sujeito bastante pessimista, sempre me disse que os piores juízes para o Benfica eram os juízes do Benfica. Referia-se, obviamente, aos juízes de campo, aos árbitros dos jogos de futebol confessamente benfiquistas que decidiam maquinalmente contra o Benfica todos os lances capitais para provarem a martelo a sua isenção. O julgamento de Rui Pinto que está na origem da renúncia do juiz benfiquista não tem nada a ver com o Benfica – tem a ver com o assalto informático aos servidores do Sporting e da Doyen por parte do hacker do cabelo em pé – mas, por isso mesmo, é de aplaudir a escusa do juiz. De acordo com a teoria do meu avô, a sua decisão seria sempre favorável no tribunal aos interesses do Sporting para que desse episódio judicial saísse intacta a sua honorabilidade e a sua imparcialidade.

Era assim que as coisas se deviam passar também no futebol no que a juízes confessamente benfiquistas diz respeito. Tomemos, por exemplo, o caso prático do antigo juiz de campo Pedro Proença, um juiz confessadamente benfiquista e que atualmente é o presidente da Liga de Clubes. Se o juiz de campo Proença, por amor à isenção e respeitabilidade do cargo que ocupou de apito, fosse da laia ética e moral deste juiz benfiquista dos nosso tribunais civis ter-se-ia recusado a dirigir todos os jogos do Benfica para que foi nomeado ao longo da sua profícua carreira de árbitro e, consequentemente, o Benfica estaria agora a lutar, pelo menos, pelo seu 40.º título de campeão nacional de futebol. Isto sim, é que seria um lindíssimo tributo à imparcialidade prática e ativa. Mas, lamentavelmente, não foi assim que as coisas se passaram. O meu avô tinha mais do que razão. Tinha premonição.

A Liga de Clubes só admite o regresso do campeonato se for reduzida para 16,7% a capacidade total dos estádios dos clubes portugueses que competem entre si na divisão principal. Chama-se a isto otimismo a toda a prova tendo em conta que a maioria dos clubes em compita regista assistências muito abaixo das apontadas como limite máximo pela veia profilática da Liga que é a mãe-organizadora da prova. Mas não há como não sermos otimistas numa circunstância como esta. Aponte-se, portanto, para um máximo de 16% de bilhetes vendidos até porque não é todos os dias que o Benfica visita os campos dos seus adversários. O otimismo é um imperativo mesmo nas suas vertentes mais absurdas.

O Carlos Secretário disse esta semana que “se calhar tinha sido melhor ir para o Barcelona” em vez de ter ido para o Real Madrid. Ora cá estamos nós outra vez no campo do otimismo imperativo mesmo nas suas vertentes mais absurdas. Haja alegria.