Não é fácil fazer o que o Benfica de Bruno Lage fez, até agora, no Campeonato Nacional. Aliás, é complicadíssimo. Tão complicado que, em mais de 80 anos de campeonato, é a primeira vez que tal acontece: primeiras 30 jornadas numa equipa, 85 pontos.

A melhor sequência de um treinador do Benfica vinha dos anos 60, quando Fernando Riera somou 81 pontos nos seus primeiros 30 jogos de campeonato. Obviamente (para facilitar a comparação entre épocas tão distintas), sempre a atribuir três pontos por vitória.

O treinador chileno entrou no Benfica em 1962/1963 e foi logo campeão nacional, fruto de 23 vitórias, 2 empates (Leixões-Benfica, 0-0; Benfica-Olhanense, 1-1) e apenas 1 derrota (Benfica-FC Porto, 1-2) nos 26 jogos dessa temporada. Somou assim 71 pontos em 1962/1963. Ficavam a faltar-lhe mais quatro para o número redondo de 30 jogos. Que realizou no início de 1966/1967, depois de ter passado as três épocas anteriores no Chile (Universidad Católica) e no Uruguai (Nacional).

Nas primeiras quatro jornadas de 1966/1967, o Benfica de novo de Riera somou três vitórias e um empate (Varzim-Benfica, 0-0) e o treinador chileno alcançou, assim, 26 triunfos, três empates e uma derrota nos seus primeiros 30 jogos pelos encarnados. Total: 81 pontos. Nunca, em Portugal, um treinador somara tantos pontos nos seus 30 jogos iniciais num clube. O melhor, até então, eram os 77 de Béla Guttmann no Benfica (26 em 1959/1960 e 4 em 1960/1961).

Passaram-se, entretanto, 18 anos e ninguém igualara o feito de Fernando Riera. E pelos três maiores clubes portugueses andaram grandes nomes do treino: José Maria Pedroto, Otto Glória, Fernando Vaz, Jimmy Hagan, Juca, Mário Wilson, John Mortimore, Lajos Baroti, Malcolm Allison ou Sven-Goran Eriksson, entre outros. Até que o FC Porto apostou, em 1984, num treinador de 38 anos: Artur Jorge. E os dragões fizeram, em 1984/1985, época quase imaculada no campeonato de 30 jornadas: 26 vitórias, 3 empates (FC Porto-Sporting, 0-0; Sporting-FC Porto, 0-0); Vizela-FC Porto, 0-0) e 1 derrota (Boavista-FC Porto,1-0). Total: 81 pontos. OS mesmos de Fernando Riera em 1966/1967. O recorde fora igualado, mas não melhorado.

Vinte e seis anos depois, no início de 2010/2011, o FC Porto foi buscar André Villas Boas, então a caminho dos 33 anos. Pelos três grandes clubes de Portugal tinham passado, entretanto, homens como Manuel José, Toni, Tomislav Ivic, Bobby Robson, Carlos Queiroz, António Oliveira, Fernando Santos, Jupp Heynckes, Augusto Inácio, José Mourinho, Jesualdo Ferreira, Giovanni Trapattoni, Paulo Bento ou Jorge Jesus, entre outros. Mas nenhum chegara aos 81 pontos. Os melhores tinham sido António Oliveira em 1996/1997 e Jorge Jesus em 2009/2010, ambos com 76 pontos nas suas primeiras 30 jornadas ao serviço de um clube. Até que na histórica época de 2010/2011, o FC Porto de André Villas Boas terminou os 30 jogos com nada menos de 84 pontos, fruto de 27 vitórias e 3 empates (V. Guimarães-FC Porto, 1-1; Sporting-FC Porto, 1-1; FC Porto-Paços de Ferreira, 3-3).

Era apenas a segunda vez, depois do Benfica de Jimmy Hagan em 1972/1973, que uma equipa terminava o Campeonato Nacional sem derrotas. Os encarnados chegaram a esse feito na terceira época do técnico inglês na Luz, enquanto os azuis-e-brancos fizeram-no na primeira do agora português no Dragão.

Pensava-se, então, que este recorde de apenas três empates em 30 jogos fosse quase intransponível. Por Benfica, FC Porto e Sporting estrearam-se, entre outros, Rui Vitória, Vítor Pereira, Domingos Paciência, Sá Pinto, Paulo Fonseca, Leonardo Jardim, Julen Lopetegui, Marco Silva, José Peseiro, Nuno Espírito Santo, Sérgio Conceição, entre outros. E nada de igualar o feito de 84 pontos de André Villas-Boas. O máximo conseguido foi uma aproximação à distância: Rui Vitória (2015/2016) e Sérgio Conceição (2017/2018) com 76 pontos, Vítor Pereira (2011/2012) com 75 e Jorge Jesus (Sporting – 2015/2016) com 74 nos primeiros 30 jogos dessas épocas.

Até que chegámos a 6 de janeiro de 2019. O Benfica perdera em Portimão por 0-2 e Luís Filipe Vieira decidiu voltar atrás na decisão de manter Rui Vitória como treinador principal e a substituição foi feita, entrando Bruno Lage para o seu lugar. Primeiro era para ser provisório. Depois passou a ser provisoriamente provisório e depois, quando os dirigentes do Benfica confirmaram que havia condições para ser definitivo, Bruno Lage passou a ser treinador principal a cem por cento.

Lage completou, entretanto, 30 jogos na Liga ao serviço do Benfica: 19 em 2018/2019 e 11 em 2019/2020. E nada menos de 28 vitórias, 1 empate (Benfica-Belenenses, 2-2, a 11 de março) e 1 derrota (Benfica-FC Porto, 0-2, a 24 de agosto). Total: 85 pontos e recorde de André Villas Boas ultrapassado. A média pontual do Benfica de Bruno Lage é absurda: 2,83 pontos por jogo.