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O “manto marrom” é mais uma cortina para assuntos incómodos?

Miguel Nogueira, debaixo de pressão antes, “isento e sério” depois

O “manto marrom” é mais uma cortina para assuntos incómodos?

O presidente do FC Porto voltou a criar ruído.

Padres, missas, “manto marrom”, Benfica, Sporting, comunicação social e tudo aquilo que possa servir para alimentar mais uns dias de guerrilha.

Curiosamente, numa altura em que existem assuntos bem mais incómodos para explicar.

Um deles diz respeito às alegadas pressões em torno da nomeação de Fábio Veríssimo para o FC Porto-Benfica da Taça de Portugal.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, e que estarão a ser investigadas pela Polícia Judiciária, terão existido tentativas para evitar a nomeação de Fábio Veríssimo para aquele clássico. O FC Porto tinha, na altura, classificado publicamente a nomeação como “absolutamente incompreensível” e chegou a defender que Luciano Gonçalves já não reunia condições para continuar no cargo.

É sobre isto que gostaria de ouvir André Villas-Boas falar.

Mas o presidente do FC Porto preferiu voltar aos “padres”.

E já que falou em padres, também não podia faltar o padre Tiago Silva, o cartilheiro do mês que mereceu agora a bênção presidencial na revista Dragões.

André Villas-Boas elogiou publicamente o comentador pela forma como defendeu o FC Porto no debate sobre as alegadas pressões na arbitragem.

Está fechado o círculo.

Entretanto, existem outros números dos quais também não se fala tanto.

Seis cartões amarelos em 96 faltas no campeonato.

Mais de 230 dias sem uma expulsão na Liga.

E não faltaram, entretanto, lances que poderiam alimentar exatamente a mesma discussão disciplinar que o FC Porto tanto gosta de promover quando acontece aos outros.

Também continua por resolver outro assunto.

O Benfica pediu formalmente ao Conselho de Disciplina esclarecimentos sobre as consequências desportivas do processo dos e-mails, depois de a decisão judicial ter transitado em julgado.

E aqui convém recordar factos, não “padres”.

A Justiça deu como provada a manipulação de informação na divulgação dos e-mails e houve condenações por crimes relacionados com a correspondência e a ofensa ao Benfica.

Talvez seja mais confortável voltar às missas.

Também vêm aí as contas do FC Porto.

Veremos o que mostram.

Mas a sensação que fica é que André Villas-Boas percebeu perfeitamente o valor de uma vitória sobre o Benfica.

Não apenas pelos três pontos.

Serve para alimentar a narrativa do “contra tudo e contra todos”, mobilizar os adeptos e colocar outras discussões em segundo plano.

E depois temos Miguel Nogueira.

Antes do clássico, o FC Porto tinha passado meses a pressionar publicamente a arbitragem portuguesa.

Depois de vencer o Benfica, André Villas-Boas descobriu uma “grande arbitragem” e agora escreve que Miguel Nogueira foi “isento e sério”.

A mensagem que fica é extraordinária.

Quando as decisões não agradam, atacam-se árbitros, Conselho de Arbitragem e dirigentes.

Quando o resultado agrada, temos árbitros “isentos e sérios”.

É esta mudança que merece ser escrutinada.

André Villas-Boas prometeu representar uma mudança no futebol português.

Mas quanto mais ouvimos falar em padres, missas, mantos, inimigos e conspirações, mais difícil é encontrar esse anunciado ar fresco.

Mudaram os protagonistas.

O cheiro da guerrilha permanente é que continua demasiado familiar.

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