Outubro é rosa. E nos outros onze meses?
Acabar com o feminino quando está quase a descer de divisão já não é rosa?
O Sporting decidiu pintar de cor-de-rosa o autocarro da equipa principal de futebol para assinalar o Outubro Rosa e lançou mais uma coleção de camisolas dedicada à prevenção do cancro da mama. Uma causa importante, que merece toda a visibilidade possível e para a qual, importa também dizer, 25% das receitas da coleção revertem para projetos apoiados pela Fundação Sporting.
O problema começa quando saímos da fotografia e olhamos para aquilo que o clube tem feito no desporto feminino.
O Sporting terminou este ano com toda a formação feminina de andebol, deixando dezenas de jovens sem continuidade num projeto que tinha alimentado expectativas e onde chegou a ser apontada a criação de uma equipa sénior em 2027/28. No futsal feminino também existem há muito relatos de condições muito diferentes daquelas que normalmente associamos a um dos maiores clubes portugueses, incluindo deslocações de jogadoras em viaturas próprias.
Agora surgiu ainda a polémica em torno de Cátia Azevedo. Uma atleta olímpica, recordista nacional dos 400 metros e ligada ao Sporting durante 18 anos, que foi mãe recentemente e está de saída do clube. Neste caso, é importante acrescentar que foi noticiado posteriormente que o Sporting apresentou uma proposta de renovação pelos mesmos valores e que a atleta não a aceitou.
E depois aparece o autocarro cor-de-rosa.
Nada contra a campanha. Pelo contrário. O combate ao cancro da mama merece muito mais do que um autocarro, uma camisola ou uma publicação nas redes sociais.
Mas talvez seja precisamente por isso que estas causas não possam viver apenas de símbolos bonitos.
Pintar um autocarro de rosa é fácil. Lançar uma camisola rosa também. Difícil é garantir investimento, condições, continuidade e oportunidades às mulheres que todos os dias representam o clube.
Porque apoiar as mulheres durante o Outubro Rosa fica muito bem na fotografia.
Apoiá-las durante os outros onze meses é que demonstra se a causa é mesmo para levar a sério.
