Pé de igualdade para toda a gente menos para o CNID que ainda perora bucolicamente

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Sandra Bastos é uma árbitra de futebol e uma pioneira. Foi a primeira árbitra portuguesa designada pela FIFA para apitar numa fase final do Mundial feminino. E lá esteve Bastos em França a apitar e a apitar bem segundo as crónicas. Sendo que as palavras “futebol” e “campeonato” não têm correspondentes femininos e que soaria esquisito chamar “campeonata” a qualquer campeonato de futebol feminino – embora tivesse a sua graça – há sempre que especificar o género quando se trata de futebol jogado ou arbitrado por mulheres. E a especificação deveria terminar aqui porque as Leis do Jogo são iguais para os dois géneros e devem ser aplicadas indistintamente do género.

Com a admiração devida pelo percurso da árbitra Bastos, atrevo-me a afirmar que procedeu mal em Julho de 2018 quando, apitando um amigável entre a Académica e a Oliveirense, deu o jogo por terminado aos 60 minutos na sequência de um incidente com um jogador da Académica que lhe puxou por um braço por não aceitar uma decisão sua. A árbitra dirigiu-se ao banco da Briosa e pediu ao treinador para retirar de campo o jogador o que não foi aceite. Bastos deu o encontro por terminado e lá foram todos e todas para os balneários meia hora mais cedo. O que Sandra Bastos deveria ter feito nessa ocasião era expulsar o jogador que teve um comportamento agressivo com a autoridade em campo. É o que estipulam as Leis do Jogo que não são sexistas nem contemplam variantes em função do género de quem pratica ou de quem julga as ações cometidas em campo.

O género não é um estatuto. A igualdade de género não reclama a desigualdade destes e de outros funcionamentos. A igualdade de género reclama salários iguais e a igualdade perante as circunstâncias e as normas. Sexismo será, por exemplo, praticar o contrário como o fez uma coisa arcaica que se chama CNID e que é um clube de jornalistas desportivos para quem foi “inadequado” e “indigno” o comentário de Jorge Jesus ao comentário proferido por uma jornalista da Sport TV, Rita Latas, sobre a fraca qualidade do jogo apresentado pela equipa do Benfica no Funchal. “Você não sabe o que é muita qualidade sobre futebol”, disse o técnico a Latas como diria a qualquer sujeito do sexo oposto de Latas em semelhantes circunstâncias. Tratou-se de um conflito de opiniões sem identidade de género entre profissionais da mesma indústria e em pé de igualdade para toda a gente menos para o CNID que ainda perora bucolicamente, em 2021, que “a influência feminina deve ser particularmente bem aceite no mundo do futebol”.

Leram bem? Para estes pensadores que não passam de moda, as mulheres jornalistas não são equiparadas em estatuto profissional aos seus colegas homens, são, enfim… “uma influência” destes tempos como foi em tempos a moda das calças à boca de sino. Valha-nos Deus que, pelo menos, essa moda já passou.