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Primeiro o banco, agora o filho: o que se passa com Ronaldo?

A Seleção não é uma série da Netflix nem há lugares por herança

Primeiro o banco, agora o filho: o que se passa com Ronaldo?

É inacreditável aquilo que se tem vindo a saber nas últimas horas sobre o capitão da Seleção Nacional. Cristiano Ronaldo abandonou o grupo depois de não suportar uma decisão que faz parte da coisa mais normal que existe no futebol: o treinador escolhe quem joga. Pode acertar, pode errar, podemos discutir durante horas se Ronaldo deveria ter sido titular, suplente utilizado ou ter ficado no banco, mas existe uma pessoa contratada para tomar essa decisão e chama-se selecionador nacional. A liderança também se vê nestes momentos. Principalmente quando as decisões não são aquelas de que gostamos.

Estamos a falar de futebol, não de uma série da Netflix em que cada episódio precisa de acabar com um drama para garantir a temporada seguinte. Ronaldo não foi utilizado diante da Noruega, mostrou o seu desagrado e acabou por abandonar posteriormente o estágio, deixando Portugal sem o capitão para os encontros seguintes. E há uma parte que não deve ser esquecida no meio de toda esta novela: os adeptos. Houve portugueses que compraram bilhetes, viajaram e organizaram a sua vida para acompanhar a Seleção e muitos deles esperavam naturalmente ver Cristiano Ronaldo. O capitão não tem obrigação de jogar, porque essa decisão pertence ao treinador, mas um capitão tem responsabilidades para com o grupo e para com a camisola que representa. Sair quando deixa de ser a primeira opção transmite uma mensagem difícil de compatibilizar com aquilo que esperamos de quem usa a braçadeira.

E depois aparece outra informação que, a confirmar-se, torna toda esta história ainda mais difícil de compreender. Tem sido apontado que entre os motivos de descontentamento de Cristiano Ronaldo estará também a não convocatória do filho para a Seleção Nacional de sub-17. Repito: esta motivação necessita de ser confirmada. Mas, se for verdadeira, entramos num terreno que considero muito mais grave do que uma simples discussão entre jogador e treinador.

Cristiano Ronaldo Júnior tem todo o direito de sonhar com a Seleção, de trabalhar para lá chegar e de demonstrar dentro do campo que merece ser convocado. Aliás, já representou Portugal nos escalões jovens. O que não pode existir é a ideia de que ser filho de Cristiano Ronaldo lhe confere algum tipo de direito adquirido sobre uma convocatória. Se for melhor do que os outros, é convocado. Se o selecionador entender que existem jogadores melhores naquele momento, fica de fora. É assim para o filho de Ronaldo, para o filho de qualquer outro internacional português e para o filho de qualquer cidadão que jogue futebol neste país.

Cristiano Ronaldo também não chegou à Seleção porque era filho de alguém importante. Não teve lugar cativo por decreto familiar. O Cristiano que conquistou o mundo foi aquele que saiu da Madeira, trabalhou, competiu, sofreu e ganhou o seu espaço porque era extraordinariamente bom. É precisamente esse Cristiano que deveria servir de exemplo ao próprio filho. Se Cristiano Júnior tiver qualidade suficiente, que conquiste a camisola de Portugal exatamente como o pai conquistou. Pelo talento, pelo trabalho e pelo rendimento. Não pelo apelido.

Porque, se começarmos a aceitar que o peso comercial, mediático ou histórico de uma família pode influenciar convocatórias das seleções nacionais, onde acaba isto? Hoje é o filho. Amanhã será quem? O sobrinho? E daqui a alguns anos o neto? Vamos transformar as seleções jovens numa espécie de direito sucessório em que determinados apelidos passam de geração em geração? Estamos a brincar ao futebol se aceitarmos sequer discutir esse princípio.

Há ainda uma segunda questão que merece ficar para memória futura. Cristiano Ronaldo é acionista da Medialivre, grupo proprietário de vários órgãos de comunicação social com enorme peso no desporto português. Isso não significa, por si só, que Ronaldo determine aquilo que os jornalistas escrevem ou dizem, nem existe base para afirmar que o faça. Mas significa que existe uma relação societária objetiva que exige ainda mais transparência sempre que esses meios divulgam informações sobre um conflito em que o próprio acionista é protagonista. Quando surgem informações confidenciais, versões favoráveis a uma das partes ou comentadores a defender determinada narrativa, o público tem o direito de conhecer essa relação e de avaliar a informação com todos os elementos disponíveis.

É precisamente por isso que a independência editorial deve ser absolutamente transparente. Ronaldo tem todo o direito de investir num grupo de comunicação social. Os jornalistas desse grupo têm todo o direito de defender as suas análises. Mas o facto de o protagonista de uma das maiores polémicas recentes da Seleção ser simultaneamente acionista do grupo que a acompanha diariamente é relevante e não deve ser tratado como se fosse um pequeno detalhe. Cabe aos próprios órgãos demonstrarem, através do seu trabalho, que a estrutura acionista não interfere na cobertura editorial.

Voltando ao futebol, há uma coisa muito mais simples no meio desta confusão toda. Jorge Jesus pode decidir que Cristiano Ronaldo joga. Pode decidir que fica no banco. Pode colocá-lo aos 60 minutos ou deixá-lo os 90 minutos sentado. Da mesma forma, um selecionador dos sub-17 tem de poder convocar Cristiano Ronaldo Júnior ou deixá-lo de fora exclusivamente de acordo com critérios desportivos. Podemos criticar todas essas escolhas depois. O que não podemos aceitar é que o estatuto de um jogador transforme uma decisão técnica num problema institucional.

Cristiano Ronaldo construiu uma das maiores carreiras da história do futebol através do mérito. É essa memória que deveria proteger. O jovem humilde que saiu da Madeira não pediu um lugar por decreto. Ganhou-o.

O filho, se quiser chegar ao mesmo sítio, também terá de o ganhar.

Porque a camisola de Portugal não se herda.

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