Há uma certa beleza cruel na forma como a realidade trata quem a ignora. Dois meses. Dois meses de especulação construída sobre nada, de narrativas trocadas de um dia para o outro, de certezas proclamadas que duravam o tempo de um ciclo de notícias. E no fim, tudo o que estava assegurado confirmou-se. Tudo o que estava a ser vendido como caos revelou-se rotina.
O argumento mais repetido, aquele que chegou a ganhar o estatuto de hit do comentário desportivo, era simples e falacioso: o Benfica estava refém do Real Madrid. Refém de Florentino Perez. Refém de José Mourinho. Refém, ouviu-se até, de uma constelação de factores externos que tornavam o clube da Luz um simples espectador do seu próprio destino.
A questão é que quem conhece minimamente como funcionam negociações desta natureza sabia que o argumento não fechava. Que acordos se constroem antes de serem anunciados. Que treinadores não esperam por resultados eleitorais para tomar decisões de carreira. Que quinze milhões de euros de transferência não aparecem do nada na véspera de uma apresentação.
O problema não é que se especule, especular faz parte do jogo. O problema é o grau de má-fé com que a especulação foi apresentada como facto, e a velocidade com que as mesmas vozes mudaram de narrativa quando a realidade as contrariou. Sem correcção, sem reconhecimento do erro, sem sequer um momento de desconforto visível.
Dois meses a tentar fragilizar a posição do clube, a alimentar dúvidas sobre a competência da direcção, a fazer acreditar que havia instabilidade onde havia processo. Dois meses a enganar quem quis ser enganado.
Florentino venceu as eleições como se esperava. Mourinho segue o seu caminho. O Benfica arrecada quinze milhões e apresenta Marco Silva como treinador. Tudo num intervalo que ridiculariza a tese do reféns e das dependências externas.
Para quem passou dois meses a construir esse castelo de areia, hoje é um dia difícil. Ou seria, se houvesse a honestidade intelectual de o reconhecer. Os cães ladram, a caravana passa, e quem ficou a ladrar nem sequer tem a decência de se calar. Já procuram o próximo argumento. Já estão a fabricar a próxima narrativa.
O Benfica, entretanto, tem um treinador. E tem-no exactamente quando precisava de ter.






