
Salvador tem seis anos e vive todos os dias com Epidermólise Bolhosa Distrófica Recessiva, uma doença que faz da pele algo tão frágil como papel de seda. Antes do apito inicial da receção ao Estoril, na quarta jornada da Liga Betclic, foi ele quem pisou a relva do Estádio da Luz. Ficará mais na memória do que muita coisa que se passou depois no relvado, e isso já diz muito sobre o dia.
O jogo em si teve tudo para complicar. O Benfica só destrancou o marcador aos 40 minutos, com Pavlidis a resolver da forma que já habituou os adeptos, com um golo que lhe vale onze na contagem da temporada. Não é pouco, a esta altura do campeonato. Lenglet, mais tarde, fez o segundo, dando alguma tranquilidade a um resultado que o Estoril ainda encurtou.
Mas o verdadeiro assunto do dia tem nome e sobrenome, João Palhinha. Entrou aos 31 minutos e não perdeu tempo a mostrar porque foi contratado ao Bayern Munique. Saiu de campo como o melhor em campo, distinção que raramente se dá a quem estreia a camisola. Diz muito sobre a postura, sobre a leitura de jogo e sobre a confiança que já trouxe consigo. Um médio que chega da Alemanha e assume o jogo em minutos, sem hesitações, é sinal de que veio para durar.
Nem tudo foram boas notícias. Barrenechea sentiu qualquer coisa aos 30 minutos e teve de sair, ainda sem se saber a gravidade. É a nota de cautela que ensombra um dia que, de resto, teve muito para celebrar. Entre a lição de vida de um miúdo de seis anos e a lição de futebol de um médio recém-chegado, o Benfica somou mais três pontos e ficou com motivos de sobra para sorrir, ainda que com um olho na enfermaria.

