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Trincão vendido em dólares, a matemática que a imprensa só sabe fazer quando é o Benfica a vender

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Há contas que a nossa comunicação social faz com uma precisão de relojoeiro, e há outras que, misteriosamente, se lhe baralham. Quando é o Benfica a vender, aparecem os números todos, o valor, as comissões, os bónus, e ainda sobra tempo para transformar a saída de um jogador atrás de um salário melhor num crime contra o desporto. Quando é o Sporting, o mesmo pessoal faz as contas ao contrário, e há até quem noticie que o jogador vai ganhar no novo contrato mais do que o Sporting vai receber pelo passe. É um talento raro, este, o de saber somar só quando convém.

Venhamos então à obra. O Sporting anunciou a venda de Trincão de uma forma curiosa, em dólares, com o total arredondado aos 50 milhões, bónus já incluídos, como quem serve o prato com mais molho do que carne. Traduzido para a moeda em que o clube paga as contas, e descontada a comissão de dez por cento que o Sporting tem de suportar, o valor real aproxima-se dos 36 milhões de euros, aos quais se poderão juntar uns quatro milhões se aparecerem os tais objetivos. A cosmética cambial é gira, mas o euro não se deixa maquilhar.

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E aqui está o que interessa. Falamos de um dos melhores jogadores do campeonato nas últimas três épocas, peça de dois títulos em três anos, despachado por 36 milhões limpos sem que ninguém em Alvalade tenha corado. Agora imaginem o exercício, e imaginem a manchete. E se fosse o Benfica a vender o seu melhor por 36 milhões? Já sabíamos o guião de cor, o clube vendedor, o projeto desmantelado, a ambição travestida de crime. Como é o Sporting, é gestão, é visão, é sorte a dobrar.

Para dar escala à coisa, façamos a única comparação que interessa. Trincão sucede a Hjulmand, capitão e, para muitos, o jogador mais decisivo do Sporting, também ele saído por 40 milhões, sem que a palavra desmantelamento incomodasse ninguém. E 36 milhões é, mais coisa menos coisa, o que o Benfica recebeu pelo Marcos Leonardo, um avançado que nunca chegou a ser titular na Luz. Ou seja, o Sporting vendeu talvez o seu melhor pelo preço de um suplente encarnado, e a leitura oficial é de festa.

Fica a nota e fica, sobretudo, a pergunta. Comunicar em dólares serve para engordar a fotografia, o que conta é o euro que entra nos cofres depois da comissão. O resto, a matemágica seletiva de quem só sabe contar quando o clube da conta é o outro, é que devia dar manchete.

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