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Villas-Boas já sabe que “nada se vai passar”?

Villas-Boas já sabe que “nada se vai passar”?

Villas-Boas já sabe que “nada se vai passar”?

Ao descrever o gesto de Samu sobre Bah como uma simples “festinha”, André Villas-Boas continua a mostrar aquilo que considero ser a sua verdadeira identidade enquanto presidente do FC Porto. Um presidente cada vez mais trauliteiro, que aproveita o sucesso de uma equipa igualmente agressiva na abordagem aos jogos e que tem beneficiado de uma enorme tolerância disciplinar por parte das equipas de arbitragem. Porque chamar “festinha” a um gesto em que as imagens mostram Samu a atingir Bah com a mão fechada não serve para discutir futebol. Serve para desvalorizar um comportamento que o Benfica entende que deveria ter tido consequências disciplinares.

Mas existe uma parte das declarações de Villas-Boas que me parece ainda mais interessante. O presidente do FC Porto garante que “evidentemente nada se vai passar” e considera que a participação do Benfica será apenas “uma perda de tempo para o Conselho de Disciplina”. Como é que André Villas-Boas pode ter tanta certeza sobre aquilo que um órgão disciplinar independente vai decidir? Ou conhece alguma coisa que nós desconhecemos ou está simplesmente a tentar criar publicamente a convicção de que qualquer eventual castigo seria absurdo. Seja qual for a explicação, seria interessante perceber de onde vem tamanha segurança antes de existir uma decisão.

Punir ou não Samu é agora uma questão para a disciplina federativa. As imagens existem, o gesto não foi sancionado durante o encontro e o Benfica entende que existe matéria para uma apreciação posterior. Cabe ao Conselho de Disciplina analisar o caso e decidir de acordo com os regulamentos. Se concluir que não existe fundamento para qualquer sanção, explica-se e encerra-se o assunto. Se considerar que existiu uma agressão suscetível de punição, então deve aplicar o respetivo castigo. O que não pode acontecer é a decisão parecer tomada antecipadamente porque o presidente de um dos clubes garante publicamente que “nada se vai passar”.

Outra nota sobre o mesmo clube, mas desta vez para a comunicação social. Finalmente começaram a colocar a nu os números das faltas e dos cartões do FC Porto neste campeonato. Ao fim de sete jornadas, são 96 faltas assinaladas aos portistas. Curiosamente, quando o cartilheiro do mês Tiago Silva recomendou a Benfica e Sporting que fizessem menos faltas se queriam receber menos cartões, parece ter-se esquecido de olhar para os números do próprio clube.

O Benfica tem menos nove faltas assinaladas do que o FC Porto e, ainda assim, recebeu mais do dobro dos cartões. Portanto, talvez o problema não seja simplesmente “fazer menos faltas”. Os próprios números obrigam, no mínimo, a discutir que tipo de faltas são cometidas, em que zonas do terreno acontecem, quantas interrompem transições, quais justificavam disciplinarmente cartão e, sobretudo, se o critério utilizado está a ser aplicado da mesma maneira às diferentes equipas.

E convém também recuperar outra pérola do cartilheiro do mês. Tiago Silva começou por garantir que existiam apenas dois cartões que deveriam ter sido mostrados a jogadores do FC Porto e não foram. Passou uma semana e a própria cartilha já admitia três. Vamos ver onde estará essa contabilidade daqui a mais algumas jornadas.

Porque os números têm esta característica desagradável para determinadas narrativas: ficam registados. E quando temos uma equipa com 96 faltas em sete jornadas e uma quantidade de cartões muito inferior à dos principais adversários, talvez seja mais interessante analisar aquilo que está a acontecer dentro do campo do que mandar Benfica e Sporting fazerem menos faltas.

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