Advogado do Benfica arrasa “hackers e as suas madrinhas”

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Rui Patrício deixou uma opinião arrasadora no tema pirataria informática que passaremos a citar.

“Serve o presente para denunciar (boa ação, portanto) uma grande injustiça ocorrida nos últimos dias. Perante o silêncio das madrinhas e dos padrinhos de alguns piratas informáticos (que pelos vistos acarinham filhos e enjeitam enteados), tenho que vir a terreiro colocar os pontos nos ii. Caiu o Carmo e a Trindade porque a rapaziada do teclado terá atacado forte e feio uma operadora de telemóveis e parece que ficou meio mundo silente e à deriva. Uma velhacaria, intolerável, crime, terrorismo – tem-se bradado. Não é a primeira vez que se vocifera assim, também aconteceu, por exemplo, quando do ataque a algumas redações e empresas da comunicação social. Foi o fim, e as vozes jornalísticas uniram-se, num coro afinado qual Live Aid da informação, contra a barbaridade de tais atos por via informática. Agora a coisa volta a dar brado, e com mais indignação, pois mais vítimas sentiram na pele os efeitos das brincadeiras do teclado. Até já aparecem especialistas a dizer que se trata de uma guerra, que a coisa é grave e que o futuro, que é já hoje, não augura nada de bom nesta matéria.

Pois eu tenho a dizer o seguinte, começando por um disclaimer (inútil, porque não é novidade, mas ainda assim) e por uma confissão. Disclaimer: eu sou advogado de um clube de futebol que foi vítima de atos deste tipo, e sou amigo de pessoas singulares que também foram, o que é capaz de me toldar o entendimento (e, mesmo que não tolde, dirão que sim, pois aqui fica já anotado). Confissão: se fosse há uns anos, eu concordava e afinava pelo diapasão da maioria; era capaz de concordar com isto tudo, quando era mais novo e ingénuo, digamos aí há uma meia dúzia de anos, mais coisa menos coisa. Mas entretanto aprendi muito, e sobretudo as madrinhas e os padrinhos dos (de alguns) piratas informáticos abriram-me os olhos, mostrando-me que, afinal, isto de usar o teclado para espiar, furtar, bloquear, et cetera, não tem nada de mal, antes pelo contrário, pois é para bons propósitos. O segredo está em encontrar esses bons propósitos para a pirataria, e sobretudo boas madrinhas e bons padrinhos que os apregoem.

 

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Esta malta que atacou a operadora, pelos vistos, ainda não afinou bem o discurso e/ou não encontrou a proteção adequada. Ou então, porque meteu a faca digital no ventre de muitos, e não apenas de alguns, lixou-se, porque a coisa dói mais quando nos toca a nós, e não apenas aos outros. Quando toca aos outros é divertimento (é como aquele dito jocoso sobre a pimenta, o traseiro e o refresco), quando não mesmo vazadouro de sentimentos menos sãos, mas quando nos toca a nós já dói e mói, e pode mesmo ser crime e terrorismo. Santíssima hipocrisia (perdão, seleção natural).

Eu, se fosse aos atacantes das redações, aos piratas da operadora de telecomunicações e a outros, focava-me na narrativa, a narrativa é a chave de tudo. Com jeito, ainda acabavam santificados, ou pelo menos aconchegados a tiracolo de madrinhas e de padrinhos com tempo de antena. Por exemplo, com a narrativa certa, atacar as redações e as empresas da comunicação social não seria crime, nem facada na liberdade de imprensa, nem nada disso. Seria para ver se encontravam eventual evidência de falta de objetividade, de torções na independência, de manipulação pelas fontes, de enfeudamento de alguma redação ao capital que a alimenta, et cetera. Com imaginação e habilidade, não faltarão narrativas possíveis e sedosas.

E no que toca ao recente ataque semiparalisante às telecomunicações, não se trata de outra coisa senão de uma manifestação pós-moderna de alerta para a excessiva dependência do digital na sociedade atual. Não foi pirataria, não foi crime, foi um manifesto, um ato de coragem, um grito de Dolores Ibárruri. Talvez até tenha sido arte, uma espécie de instalação, daquelas muito modernas que só meia dúzia de entendidos compreende no seu verdadeiro significado. A turba ignara diz que é terrorismo. Não é nada, meus amigos, não é nada, é para a salvação da humanidade. Então não aprenderam nada nos últimos anos? Não ouviram com atenção os evangelistas da (de alguma) pirataria? Ouçam, ponderem, e digam “ouvimos, senhoras e senhores”; e deixem-se piratear. É para nosso bem”.

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