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João Gabriel fala de Bruno de Carvalho

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RECORD – Diz que a comunicação só por si não ganha campeonatos, mas pode ajudar a perdê-los. Foi isso que aconteceu ao Sporting?

JOÃO GABRIEL – Não quero entrar por aí, até porque na verdade não houve ‘uma comunicação’, mas ‘muitas comunicações do Sporting’ que em determinados momentos concorreram entre si, e isso é evidente que fragiliza a mensagem e confunde os destinatários. Em determinados momentos, ninguém sabia quem é que comandava a comunicação, se o presidente ou se o treinador. Houve dias em que o presidente falou em três ou quatro momentos sobre temas diferentes, e isso contraria as regras do que deve ser uma boa comunicação.

R – Quer dizer que o presidente do Sporting fala muito?

JG – Não serei eu a avaliar e a dizer isso. A única coisa que posso dizer é que a comunicação se rege por um princípio económico básico, a lei da oferta e da procura. Quanto menor for a oferta e maior a procura, mais valor tem esse produto. Com a palavra é exatamente a mesma coisa. Falar muito não é sinónimo de boa comunicação, pelo contrário.

R – Mas o João Gabriel usou o seu Twitter. Também vulgarizou a sua palavra?

JG – Eu não sou presidente do Benfica, sou responsável pela comunicação do clube. Depois, comparar os meus tweets com os posts do presidente do Sporting é comparar música clássica com música pimba [risos]… Sabe, é muito curioso ver os comentários que recebemos dos nossos adeptos e sócios. Alguns claramente insatisfeitos porque devíamos responder a tudo e de forma mais agressiva, outros indignados porque nem sequer devíamos responder. Às vezes é preciso ir pelo meio e usar o bom senso. Mas tenho a noção de que também não agradei a muitos benfiquistas. É impossível ser consensual quando se desempenham estas funções.

R – Foi visado de forma dura na entrevista que Bruno de Carvalho deu ao ‘Expresso’. Quer reagir?

JG – Seria muito fácil responder e descer ao nível que ele desceu, mas não o vou fazer. Diria apenas que tem uma tremenda falta de noção do lugar que ocupa. Tenho mais noção da responsabilidade do que é ser diretor do Benfica do que ele tem do que é ser presidente do Sporting. E uma última nota, quando quiser citar alguém é bom que saiba de quem fala. Ele quis citar um escritor e humorista norte-americano e não um filósofo como erradamente menciona.

R – Foi também alvo de Octávio Machado durante toda a época. Alguma explicação para isso?

JG – Faz o papel dele, não levo a mal. É um profissional, e respeito isso, mas tem um grande handicap, a falta de coerência. Há uma história que fala por si, o que já disse e desdisse de Pinto da Costa, de José Roquette e até de Bruno de Carvalho. Este histórico diz-nos que tem uma opinião muito volátil. Por outro lado, está ultrapassado. Uma conferência de imprensa a partir dos 10 minutos é tempo morto. A comunicação do Sporting não pode ser assumida por Octávio Machado. Não tem peso.

R – Quem tem peso no Sporting?

JG – Tinha o presidente do Sporting, mas também ele o perdeu com a lipoaspiração… [risos]. É evidente que qualquer presidente ou treinador do Sporting tem peso naquilo que diz, e esse peso, que a instituição lhes confere, devia levá-los a ter maior contenção.

R – Mas também não houve contenção da sua parte e as permanentes trocas de palavras com o presidente do Sporting aqueceram a época. Isso é saudável?
JG – De todo. Acho que o futebol vivia muito melhor sem isso. Mas não se pode comparar a quantidade de insinuações e provocações que o presidente do Sporting lançou durante toda a época com aquilo que eu fui dizendo, e muito menos com a reserva e contenção que o Benfica assumiu durante todo o ano. Contra mim falo, mas acho que tem de haver penalizações severas para todos os dirigentes que alimentem a polémica de forma gratuita. Mas a responsabilidade não é só dos dirigentes. Os jornalistas às vezes também têm muita responsabilidade no ambiente de crispação que se cria à volta do futebol.

R – Como assim? Os jornalistas reproduzem declarações…

JG – Mas esse é o ponto. Em cada época de incêndios, o Ministério da Administração Interna faz recomendações às televisões para que não mostrem imagens de incêndios, porque isso estimula os pirómanos. Mas as televisões, com maior ou menor amplitude, continuam a mostrar essas imagens. No capítulo desportivo é igual. Os jornalistas também deveriam ter cuidado no destaque que dão às declarações ‘pirotécnicas’ dos dirigentes, porque isso estimula comportamentos antidesportivos. E, quando acontecem situações graves, ouço sempre dizer que a culpa é dos dirigentes. Mas os jornalistas também amplificam declarações que não deviam ter relevância. Por outro lado, os jornalistas não se podem limitar a ser correias transmissoras, sem espírito crítico.

R – Algum exemplo em particular?

JG – Assim de cabeça… dois ou três. Primeiro, a saúde financeira do Sporting tão apregoada pelo presidente do clube assenta em mais de 100 milhões de VMOC [valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis], ou seja, dívida que foi transformada em capital e que, por essa via, baixa não apenas o passivo como os custos financeiros do Sporting. Isso não é saúde financeira, mas, sim, uma forma artificial de baixar passivo e de concorrer em condições desiguais com o Benfica e o FC Porto. O Sporting não respira saúde do ponto de vista financeiro, tem é um regime de favor que a banca não facilitou a nenhum outro clube, mas isto os jornalistas não dizem. Outro exemplo? O número de sócios dos três clubes. Outra das ladainhas do presidente do Sporting. Mas porque é que os jornalistas não consultam os relatórios e contas das SAD dos três grandes e comparam o que é que os sócios, a nível de quotização, representam para os três clubes? E veriam a diferença que há entre os três.

R – Mas os jornalistas não podem assumir o papel que deve ser desempenhado por outros…

JG – Admito que, em certas situações, o contraditório a determinados argumentos não compete aos jornalistas, mas em qualquer um dos casos que falei atrás trata-se de factos facilmente verificáveis, e aí acho que os jornalistas têm de ir mais longe. Falaram há pouco da ‘violência’ na troca de palavras que marcou esta época, mas se a postura do Benfica tivesse sido igual à do Sporting, garanto-lhe que tudo teria sido bem pior. Se a postura do presidente do Benfica tivesse sido similar à de Bruno de Carvalho, esta época teria sido um desastre. Teria sido fácil explorar o caso Cardinal com a mesma intensidade que usaram no caso dos vouchers, teria sido fácil chegar ao mesmo nível panfletário do presidente do Sporting em muitas outras situações, nomeadamente nesta parte final com a vergonha que se passou em relação ao caso Slimani, mas não o fizemos, e creio que a Federação e a Liga devem estar gratas ao Benfica pela postura que o clube assumiu. A questão do Renato Sanches foi das coisas mais baixas a que assisti nestes oito anos. Não pode valer tudo.

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