graças à condição de autarca que o presidente do Sporting Clube de Portugal está “liberto” das suas obrigações militares, mas são justamente as funções na Assembleia de Freguesia de Odivelas, para as quais foi eleito em 2013 e em 2017, que Frederico Varandas não tem desempenhado com assiduidade. As atas demonstram que desde que anunciou ser candidato a comandar o clube de Alvalade, o presidente do Sporting não mais voltou a aparecer nas reuniões daquele órgão.

Vamos por partes. Há seis anos, o líder leonino foi o número dois da lista do PSD candidata à assembleia de freguesia de Odivelas, logo atrás de Marco Pina (hoje vereador no executivo camarário e comentador de arbitragem na CMTV). Após o sufrágio e a respetiva eleição, Varandas invocou a qualidade de eleito autárquico para solicitar a “dispensa” provisória, tal como confirma, em resposta à VISÃO, a porta-voz do Exército. “Cumpre-me informar que o capitão Frederico Nuno Faro Varandas encontra-se, administrativamente, em licença especial de eleições, conforme o art.º 3.º do decreto-lei n.º 279-A/2001, de 19 de outubro, desde outubro de 2013”, esclarece, por e-mail, a major Elisabete Silva.

Esse decreto estipula que a licença especial “é concedida pelo chefe do estado-maior do ramo a que o requerente pertencer” (neste caso, o Exército) e que o beneficiário da licença “é considerado fora da efetividade do serviço” até à conclusão do respetivo mandato.

Sucede, ainda assim, que o gozo da licença não se esgotou aí, como o próprio Frederico Varandas atesta, em resposta escrita enviada à VISÃO. Quatro anos volvidos, nas autárquicas de 2017, voltou a fazer parte do leque de candidatos à Assembleia de Freguesia de Odivelas, dessa vez em quarto lugar numa lista de coligação PSD/CDS-PP, curiosamente liderada pelo benfiquista Fernando Seara. Varandas renovou o assento naquele órgão e, por conseguinte, voltou a pedir dispensa das obrigações militares.

Consultadas as folhas com os registos de presenças das reuniões da Assembleia de Freguesia de Odivelas, entre as 26 sessões (ordinárias ou extraordinárias), respeitantes ao mandato em curso e ao anterior, foram mais as ocasiões em que Varandas não esteve presente do que aquelas em que participou nos trabalhos. Foi apenas a 12 reuniões, tendo sido substituído nas restantes 14. Ou seja, não compareceu a 54% das reuniões.

Varandas confirma os pedidos da licença em 2013 e em 2017, mas justifica-se dizendo que “obviamente que não existiram ‘sucessivas ausências’”, dado que só se fez substituir, “nos termos legais”, nas sessões em que lhe foi “absolutamente impossível comparecer”. Na sua resposta à VISÃO, nota ainda que “a licença especial em causa destina-se a acautelar a independência das Forças Armadas e suspende o vínculo com a instituição militar”.

No entanto, desde que anunciou a demissão do cargo de diretor clínico do Sporting (clube e SAD) para avançar para a presidência, em maio do ano passado, nunca mais foi visto nas reuniões da Assembleia de Freguesia de Odivelas. As atas comprovam-no: a última vez em que ocupou o seu lugar foi a 24 de abril de 2018.

Interrogado sobre a sua assiduidade desde que assumiu querer suceder a Bruno de Carvalho, Varandas admite que equacionou suspender ou renunciar ao mandato em Odivelas, mas não clarifica os motivos pelos quais assim não decidiu. “Ponderei. Por um infindável conjunto de razões que exigiriam uma resposta muito extensa da minha parte, mas, em grande medida, em razão da indisponibilidade de tempo, porque o dia não tem mais de 24 horas e porque a missão que decidi abraçar exige muito, mesmo muito, da minha pessoa”, escreve, num e-mail, sem se alongar acerca desse tópico.

Política “varrida” do currículo

Apesar de ser pela qualidade de autarca que Varandas está desobrigado das lides militares, o presidente do Sporting oculta a parte política de todos os seus currículos que chegaram ao espaço público.

A omissão verifica-se, desde logo, no site da ComCorpus, a clínica especializada em medicina que Varandas criou e dirige desde 2015. Ocorre também no perfil do líder do emblema verde e branco na rede social LinkedIn. De igual modo, não existe uma única referência a Odivelas na comunicação formal do seu percurso académico e profissional à SAD leonina e aos seus acionistas, formulada em outubro do ano passado.

Varandas nega que assim seja: “É falso que haja qualquer tipo de omissão a esse respeito em ‘documentos curriculares públicos’. O meu CV sempre que, nos termos legais e para os devidos efeitos legais, foi solicitado, foi apresentado. Acresce que a minha formação académica e profissional, bem como o meu percurso profissional, em entidades públicas ou privadas, até pelo conjunto de provas públicas prestadas ao longo de décadas, em instituições públicas, é do conhecimento público ou facilmente comprovável.”

Quando questionado sobre a sua ligação ao município, é defensivo. “Gosto de Odivelas. Tem sido ao longo dos anos um importante pólo de desenvolvimento demográfico e de mobilidade social. O crescimento de Lisboa e da Grande Lisboa passa, em grande medida, pela consolidação e crescimento do município de Odivelas e de outros municípios que, cada vez menos deverão ser encarados como periféricos, mas que devem ser vistos como parte integrante de uma Grande Lisboa cada vez mais preparada para competir com grandes cidades europeias”, argumenta Varandas.

Já dos sociais-democratas, demarca-se em absoluto. “Não tenho nenhum vínculo com o PSD. Não sou militante do PSD ou de qualquer outro partido político”, assegura, sem revelar como fez parte do rol de candidatos “laranja” nas duas últimas eleições autárquicas.

O “boom” salarial

Sendo certo que “o capitão Frederico Nuno Faro Varandas não aufere qualquer remuneração pelo Exército”, como sublinha a major Elisabete Silva e subscreve o presidente do Sporting – “nunca solicitei ao Ministério da Defesa (como poderia ter feito, mas não fiz) a manutenção da minha retribuição como capitão do Exército, a que muito provavelmente teria direito, mas que entendo não dever ter”, argumenta -, a verdade é que, como civil, os rendimentos anuais têm sido bem mais generosos.

Para lá das residuais senhas de presença pagas pela Assembleia de Freguesia de Odivelas, o dirigente máximo do Sporting ganhou 119 191 euros na temporada desportiva transata (compreendida entre 1 de julho de 2018 e 30 de junho de 2019), de acordo com o último Relatório e Contas, aos quais terão acrescido os proveitos da clínica ComCorpus. Somente na qualidade de oficial do Exército, Varandas jamais encaixaria valores semelhantes.