2 de março de 2019. FC Porto e Benfica, separados por um ponto no topo da classificação, medem forças no Estádio do Dragão. O clássico sorri às águias, que vencem por 2-1, e voam para a liderança… e para o título. Em entrevista a A BOLA, Bruno Lage recorda a exibição personalizada dos encarnados no anfiteatro portista.

Houve algum momento na época passada em que sentiram que o campeonato estava ganho?

Nessas coisas sou muito cauteloso: só senti isso quando o árbitro apitou no final do jogo com o Santa Clara. Aí respirei fundo e vi que finalmente estava ganho.

Mas depois do jogo da vitória no Dragão não sentiram algo do género, já ninguém nos pára?

Não. Senti uma alegria enorme pelo dever cumprido, mas uma alegria enorme de termos feito aquele jogo. Por aquilo que os jogadores disseram no balneário, por termos feito aquilo a que nos tínhamos comprometido, chegar lá e não termos medo de nada, jogar olhos nos olhos, termos de ganhar o jogo e foi isso que fizemos. A melhor definição em relação àquele jogo foi a estratégia. Independentemente do ambiente, do adversário, tínhamos uma estratégia para fazer, um trabalho para cumprir e tinha de ser feito e foi isso que os jogadores entenderam e cumpriram. Por vezes quando estamos a falar em grupo, sobretudo nos momentos antes das entradas em campo, o Pizzi já abordou a forma como estivemos nesse jogo. Foi um jogo que o marcou de tal forma que faz referência a ele. É uma forma de dizer que temos de chegar a qualquer jogo e encarar o adversário olhos nos olhos, sem estar preocupados em defender o A, B, C ou D, preocupar apenas connosco, com o que temos de fazer e fazer o nosso jogo. Foi isso que nesse senti: alegria porque fizemos o nosso trabalho. E sentir, claro, que a partir daquele dia a responsabilidade aumentava, porque passamos para primeiro e a alegria que é do adepto benfiquista, depois de quase ver que o campeonato estava perdido, ali estar em primeiro… nós até final já não podíamos perder, por isso é que depois também disse que já não podíamos perder esse campeonato duas vezes.

Sentiu que esse foi o melhor jogo deste ano, 2019… foi aquele que lhe deu mais prazer enquanto treinador?

Não, houve muitos que me deram prazer… Os jogos com o FC Porto são sempre desafios de enorme prazer para preparar. Do outro lado está um grande treinador, uma grande equipa técnica e uma grande equipa. E nós temos de estar preparados para tudo. Posso dar um exemplo que recordo desse jogo em particular: olhávamos para o adversário e para a nossa equipa estávamos sempre na expectativa como é que podíamos preparar os jogos e a nossa dúvida naquela altura era sobre quem seria o defesa direito…

E preparou para Militão ou para Manafá?

Para as duas coisas. Mas mais para Militão. Como ele é central e como é normal num jogador com as rotinas dele, ele procurava defender um pouco mais o espaço interior. E então preparámos o Rafa para jogar sempre mais aberto, ou seja, assim que recebia a bola teria mais espaço para jogar e ter situações de um contra um, estaria mais vertical. Mas também tínhamos que estar preparados para aquilo que o Sérgio [Conceição] preparava do outro lado, podia entender que o Rafa não seria tão forte a defender e colocaria um lateral mais ofensivo para tentar tirar partido… é um jogo do gato e do rato a ver quem é que tenta enganar quem. E quando nós sabemos a equipa foi fazer um reset rápido e dizer ao Rafa ‘esquece tudo’. E depois há a curiosidade de o golo dele nascer por dentro. Mas é este tipo de situações que temos sempre que preparar. Mas houve ali um período em que a equipa esteve muito bem, naquela sequência de jogos com Boavista, Marítimo, com o Nacional, o jogo em Alvalade… foram dois meses muito bons e também em particular esse jogo com o FC Porto.